Somália está à beira da fome, adverte ONU em ‘último alerta’ antes de catástrofe alimentar

Quase metade do país foi afetado por seca histórica; condições extremas podem prosseguir ao menos até março de 2023

As condições extremas podem prosseguir ao menos até março de 2023 (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP) 

A Somália está à beira da fome, advertiu nesta segunda-feira (5) o diretor da agência humanitária da ONU, em um “último alerta” antes que aconteça uma catástrofe neste país da região do Chifre da África, afetada por uma seca histórica

“A fome está à porta, e estamos recebendo um alerta final”, afirmou Martin Griffiths, diretor do Escritório para Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, em uma entrevista coletiva na capital somali, Mogadíscio. Os últimos dados “mostram indicações concretas de que a fome atingirá as regiões de Baidoa e Burhakaba, no centro-sul da Somália, entre outubro e dezembro”, completou.

Griffiths ainda se declarou “profundamente chocado com o nível de dor e sofrimento que tantos somalis suportam” e afirmou que viu “crianças tão desnutridas que mal conseguiam falar” durante visita a Baidoa, “epicentro” da catástrofe iminente.

As condições extremas podem prosseguir ao menos até março de 2023. Em todo o país, 7,8 milhões de pessoas, ou seja, quase metade da população, foram afetadas pela seca histórica. Um total de 213 mil estão diante de grande risco de fome, de acordo com a ONU. A fome e a sede obrigaram 1 milhão de cidadãos a sair de casa desde 2021.

“Nossos piores temores para a Somália são agora uma realidade: a fome é iminente se os fundos não chegarem imediatamente”, disse o diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos, David Beasley, no Twitter. “O mundo DEVE agir agora”, acrescentou. O país, cenário há 15 anos da violenta insurreição dos islamitas radicais shabab, enfrenta a terceira seca em dez anos.

Griffiths afirmou que a atual situação na Somália é pior que durante a fome de 2011, que provocou quase 260 mil mortes, mais da metade delas de crianças com menos de 6 anos. A seca é resultado de quatro temporadas seguidas com chuvas insuficientes desde o fim de 2020, uma situação que não foi registrada nas últimas quatro décadas.

A Organização Meteorológica Mundial, uma agência da ONU, advertiu no fim de agosto que há grande probabilidade de que a próxima temporada de chuvas, entre outubro e novembro, também não seja suficiente.

A seca dizimou os rebanhos, cruciais para a sobrevivência de uma população majoritariamente dedicada ao gado, e as plantações, que foram atingidas por uma invasão de gafanhotos no Chifre da África entre o fim de 2019 e 2021. As consequências da pandemia de Covid-19 tornaram ainda mais precária a vida de muitos somalis.

Nos últimos meses, a invasão da Ucrânia pela Rússia teve consequências dramáticas para o país, cujo abastecimento de grãos depende em 90% desses dois países. O envio de ajuda é impossível para as amplas zonas rurais controladas pelos Al Shabab, islamitas radicais vinculados à rede terrorista Al-Qaeda que lutam há 15 anos contra o governo federal.

A Somália foi atingida entre 2011 e 2012 por uma fome que matou cerca de 260 mil pessoas, metade das quais eram crianças com menos de 6 anos. A fome foi declarada em várias partes do sul e centro do país entre julho de 2011 e fevereiro de 2012.

Com informações R7.

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