Rússia defende China na crise com Taiwan

Porta-voz do Kremlin sai em defesa de Xi Jinping, que disse para os EUA não “brincarem com fogo” sobre o caso  

TENSÃO | O presidente da Rússia, Vladimir Putin, que mandou recado aos EUA ontem (Foto: Divulgação)

Cumprindo seu papel de principal aliada da China na Guerra Fria 2.0 contra os Estados Unidos, a Rússia fez nesta sexta- -feira (29) uma defesa explícita de Pequim na nova crise envolvendo a ilha de Taiwan. “Nenhum país deveria trazer essa questão”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, sobre a soberania que a ditadura presume sobre a ilha, lar dos derrotados da revolução que levou os comunistas ao poder.

Antes, o chanceler russo, Serguei Lavrov, comentou a fala do líder chinês, Xi Jinping, que disse ao americano Joe Biden que os EUA estavam brincando com fogo ao apoiar Taipé. “Nossa posição sobre a existência de uma só China segue inalterada”, afirmou.

O motivo do alarido é a possível viagem da presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, à ilha. Ela não foi confirmada oficialmente, mas nesta sexta a deputada embarca em um giro asiático entre aliados, como Japão e Coreia do Sul, e a parada em Taiwan é uma possibilidade. Ela não quis confirmar se irá a Taipé.

Isso gerou uma grave crise com os chineses, e Xi queixou-se a Biden por telefone na quinta (28). Antes, a chancelaria em Pequim havia dito que a visita, inédita para uma autoridade desse nível desde 1997, equivaleria a uma “violação de soberania”. Nesta sexta, anunciou exercício com munição real no fim de semana na região, e o Departamento de Estado americano disse não ver ameaças reais contra Taiwan.

Pelosi é uma figura odiada no Politburo chinês. Após o massacre de estudantes na praça da Paz Celestial, em 1989, ela viu a Casa Branca vetar suas iniciativas para aplica sanções contra Pequim. Dois anos depois, integrou uma comitiva de deputados que buscava falar em favor dos jovens na China e fugiu de uma visita guiada a um museu para desfraldar uma faixa pedindo justiça na praça em frente a câmeras.

Desde que reconheceu a ditadura comunista, em 1979, os EUA apoiam a política de “uma só China”. Ao mesmo tempo, assinaram um ato de cooperação com Taiwan que lhes permitiu armar a ilha até os dentes e prometem auxílio em caso de invasão. Os chineses têm intensificado suas ameaças militares a Taiwan, apesar de haver dúvidas sobre sua capacidade de agir, em especial com a proteção americana.

Enquanto a China se abria ao mundo capitalista e criava laços de interdependência econômica com os EUA, tudo bem. A questão é que Pequim enriqueceu e começou a abrir suas asas políticas e militares, particularmente depois que Xi assumiu, em 2012.

Isso desaguou na Guerra Fria 2.0, disparada por Donald Trump em 2017 como uma disputa comercial, mas que logo abarcou todos os aspectos potencialmente contenciosos da relação entre os países: da gestão da pandemia à autonomia solapada de Hong Kong.

A 20 dias do início da Guerra da Ucrânia, em 4 de fevereiro, Vladimir Putin fez uma visita histórica a Xi, firmando uma aliança que não é militar, mas de caráter político- -econômico contra o que veem como hegemonia dos EUA.

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