Gravada no edifício Itália, em pleno centro de São Paulo, a cena -presente no filme “Meu Nome é Gal”, cinebiografia da cantora prevista para o ano que vem- retrata um debate estético que serviria como gênese de um dos movimentos culturais mais importantes da música brasileira. Mas a verdade é que, naquela ocasião, Caetano e Duarte só estavam discutindo como seria o novo repertório de Gal Costa.
“A Tropicália veio muito de um desejo deles de fazer um projeto novo para a Gal e daí achar um repertório novo para ela”, diz Dandara Ferreira, que, além de intérprete de Maria Bethânia, divide a direção do filme com Lô Politti. “E o que está alimentando eles são essas referências, a Banda de Pífanos de Caruaru, o Chacrinha, os Beatles, o que está acontecendo mundialmente.”
Mesmo que ancorado na história de Gal Costa, “Meu Nome É Gal” acompanha a cantora a partir do momento em que ela troca Bahia pelo Rio de Janeiro e depois por São Paulo, no fim dos anos 1960, até o começo da década seguinte, quando Caetano e Gil são presos e acabam exilados na Europa. É a história da Tropicália, mas a partir do olhar de sua intérprete mais magnética -e também a mais reservada.
“O Caetano, por exemplo, tem uma história com uma dramaturgia nata da vida dele, porque é um drama, acontece muita coisa. E o nosso desafio era como contar a história de uma mulher que mudou a história da música pelo corpo, pela atitude e pela voz, e não pelo intelecto. Como é que uma menina tímida, mas que tem uma voz absurda, se encaixa nesse lugar? É por causa da percepção dela, por ela ser esse radar e mudar tudo com atitude”, diz Politti, que também assina o roteiro da produção.
Elenco ficou junto em casa para ensaio
O elenco do filme ficou reunido durante mais de um mês numa casa na Granja Viana, em São Paulo, para ensaiar e azeitar o entrosamento -“viver a nossa tropicalidade”, como brinca Lô Politti. “De repente, virou uma turma muito coesa, que estão juntos na folga, de noite, no hotel.” A conexão do elenco é uma das armas do filme, que é o primeiro de ficção a retratar esses personagens históricos da cultura brasileira.
Ideia de filme surgiu após produção de série sobre a cantora
A ideia do filme sobre Gal Costa veio depois que Dandara Ferreira dirigiu a série documental “O Nome Dela É Gal”, sobre a cantora, na HBO Max, e um encontro da cineasta com a artista. “A gente acabou criando uma relação além da amizade, de confiança. E dali surgiu o interesse de fazer uma obra de ficção.” Até o filme começar a ser rodado, nas últimas semanas, cinco anos se passaram até que o projeto amadurecesse.
No filme, Gal é vivida por Sophie Charlotte, que canta ao vivo -assim como os outros atores- a maioria das músicas no filme, e teve a bênção da própria tropicalista. “Quando falei para a Gal que estava pensando na Sophie, ela disse ‘ela chega muito próxima do meu timbre, do meu jeito de cantar'”, diz Ferreira, lembrando quando a atriz cantou “Sua Estupidez”, gravada por Gal, com Roberto Carlos num especial de fim de ano.
“A obra dela é muito importante na minha vida. Quando a Dandara me ligou, imagina, minha vida é antes e depois dessa ligação”, diz Charlotte, que está envolvida no projeto desde o começo e considera fundamental o tempo de desenvolvimento do filme. Ela também tem conversado com Gal, mas com uma certa distância. “Ela não tem se metido, está respeitando bastante.”
A atriz diz que buscou referências no material que Ferreira reuniu para “O Nome Dela É Gal” e, principalmente, nas músicas que a baiana gravou. “Acho que a Gal canta histórias nas músicas, e cada parte das músicas conta uma parte dessa história. Mas isso eu só fui entender ouvindo muito e entrando de cabeça nesse universo musical”, ela diz.


