Mães Paralelas

Almodóvar encara o fascismo em seu novo filme 

Histórias | Ana e Janis vivem a maternidade juntas, cada uma a sua maneira (Foto: Divulgação)

Pedro Almodóvar enfrenta as cicatrizes deixadas pelo franquismo em sua Espanha natal, num dos filmes mais políticos de sua celebrada carreira, “Mães Paralelas”. Produzido pela companhia que Almodóvar fundou ao lado do irmão, a El Deseo, o longa tem distribuição da Netflix no dia 18 deste mês na América Latina, mas antes de chegar ao streaming ganha sessões especiais no cinema a partir desta quinta-feira (3).

“Esse é um tema que ainda não está resolvido. Ainda temos gente enterrada em valas comuns e mais de 100 mil desaparecidos”, diz Almodóvar, sobre a ditadura franquista e a motivação por trás do novo trabalho.

“Nós reagimos muito tarde a esses crimes, então hoje esse é um tema muito quente e atual na Espanha. E há a metade do país que, assim como eu, quer pagar essa dívida e outra metade que não terá nenhuma reação ao meu filme, porque diz que ele serve apenas para abrir uma ferida. É um pensamento da direita, mas essa não é uma questão política, é humanitária. O que as famílias dos desaparecidos pedem é um lugar com o nome de seus entes, onde possam deixar flores.”

Exibido no Festival de Veneza, onde foi recebido com aplausos, “Mães Paralelas” não é ambientado nos anos de franquismo, mas nos tempos atuais. A trama acompanha duas mulheres que se conhecem na maternidade e dão à luz no mesmo dia.
A primeira é Ana, personagem de Milena Smit, uma garota de 17 anos que atravessa uma gravidez envolta em traumas de paternidade -seja a do bebê ou a sua própria, já que foi há pouco rejeitada pelo pai. A segunda é Janis, uma fotógrafa que beira os 40 anos e é encarnada por Penélope Cruz.

Este é um filme livre de julgamentos, como toda a obra de Almodóvar. Seus personagens com frequência desafiam moralismos da nossa sociedade, são imperfeitos, mas nunca são retratados a partir de um olhar maniqueísta ou censor.

Ele reconhece que as mulheres de “Mães Paralelas” pertencem a um ambiente urbano, são todas mães solo, o que as distancia de suas inspirações pessoais e também de várias outras personagens femininas que concebeu, mas se mostra empolgado por ter abordado no novo filme algo incomum em sua obra -uma personagem sem instinto maternal, que abandona a filha para trilhar a carreira de atriz.

Personagens complexos e cores fortes
Afeito aos melodramas novelescos e a personagens sempre complexos, Almodóvar pincelou “Mães Paralelas” com as habituais cores quentes e fortes de seus filmes -há vermelhos nos armários da cozinha, na capinha de celular, nas almofadas, no carrinho de bebê e no guarda-roupas de Janis, que veste uma camiseta nesse tom enquanto desliza sedutoramente um pincel pelas bochechas.

É uma amostra da sexualidade pulsante da protagonista, criada por um cineasta que tem na maternidade um dos temas mais recorrentes de sua obra. Reflexo de uma infância rodeada por mulheres, diz ele, que até os dez anos escutava num silêncio atento as conversas sobre o universo feminino que o rodeavam.

“Isso me encantava. Ouvir essas conversas era um espetáculo, era a origem da ficção que eu criaria, mesmo que tudo aquilo fosse verdade, porque me pôs em contato com as coisas mais terríveis e as mais maravilhosas. Elas eram de uma geração que viveu coisas horríveis na Espanha, no pós-Guerra, mas que reergueu o país.”

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