Medo de paralisação como a de 2018 causa corrida aos postos

Recap informa que não haverá desabastecimento, mas manifestação atrasou carregamentos 

Filas | Cena comum nos postos da região nesta quinta-feira de ameaça de greve (Foto: Rafael Rezende/ TodoDia Imagens)

Filas de carros em avenidas, longa espera para abastecer, preços mais altos: o cenário iniciado na madrugada desta quinta-feira (9) e que perdurou durante o dia em diversas cidades da região lembrou o desespero causado durante a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018. Os motivos da paralisação desses profissionais ontem em rodovias da região são outros, mas o medo dos consumidores foi o mesmo: ficar sem ter como se locomover em seus veículos.

Mesmo com alta recorde do preço dos combustíveis nas bombas nos últimos meses, estabelecimentos lotaram desde cedo em cidades como Americana e Santa Bárbara d’Oeste, num reflexo à mobilização de caminhoneiros que fecharam rodovias como a Anhanguera, no km 148, em Limeira, nos dois sentidos. A mobilização durou ao menos 12 horas entre a noite de quarta-feira (8) e manhã de ontem.

Bloqueios chegaram a ser feitos nas proximidades da refinaria da Petrobras em Paulínia, mas o tráfego nesses locais foi reestabelecido no meio da manhã.

Sobraram as longas filas de quem preferiu garantir combustível, independentemente do preço, até secar as bombas em alguns estabelecimentos. Onde não havia fila, não havia gasolina e nem etanol.

O desabastecimento é momentâneo devido às circunstâncias das manifestações, conforme Eduardo Valdivia, diretor da regional de Campinas do Recap (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas). “A situação de postos secos é devido à manifestação, com o consequente atraso nos carregamentos, além de motoristas autônomos que tiveram receio de ir até Paulínia carregar. Então, houve menor oferta de frete hoje [quinta-feira]”. A expectativa era de que até no máximo na tarde desta sexta-feira (10) todo o suprimento fosse regularizado, sem falta de produto ou manifestação.

Em relação aos preços, ele explica que não houve o registro de ocorrência de abusos em Americana ou Campinas, a exemplo de cidades de outras regiões, cujos postos teriam chegado a cobrar R$ 8 o litro de gasolina. Ele exemplifica que, em sua rede, a alta acumulada é na ordem de R$ 0,12 no etanol e R$ 0,06 na gasolina, desde o último dia 31.

MEMÓRIA E MEDO
Mais do que a falta de combustível, os impactos econômicos de uma paralisação prolongada dos caminhoneiros podem ser preocupantes, na avaliação do economista Marco Rocha, professor e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e Tecnológica (NEIT) do Instituto de Economia da Unicamp.

Apesar dos indícios de o movimento atual não ter a mesma força de 2018, com fragmentações na adesão e comando, o reflexo imediato pode recair em perecíveis, como produtos de hortifrúti. Mas não da forma que ocorreu naquele ano, com abalo não só na inflação como na cadeia econômica após os 10 dias de paralisação, interferindo seriamente em processos de linha de produção no restante do ano.

Na análise do economista, o medo é um fator que pode ter movido consumidores a encarar as filas pelo combustível, ainda que o cenário não aparente, a princípio, riscos de desabastecimento. E, pela lei da oferta e demanda, muitos proprietários com estoque podem ter optado por aproveitar a oportunidade de aumentar os lucros.

Um repeteco de 2018 teria o potencial ainda mais grave devido à economia já combalida pela pandemia, além da alta da inflação e outros fatores, o que refletiria diretamente no risco alimentar das classes mais pobres, como argumenta Rocha. “Seria um cenário ainda mais dramático para as famílias que não sabem se terão comida até o fim do mês, sem contar o peso da inflação”. Neste caso, a correria seria não só nos postos como nos supermercados para estocar diante do medo de faltar. 

Povo sofre na fila e postos zeram estoques
Rafael Rezende

Desde as primeiras horas desta quinta-feira (9), motoristas formaram filas quilométricas em praticamente todos os postos de combustíveis das cidades da RMC (Região Metropolitana de Campinas). Antes do meio-dia, já eram registrados postos sem combustível nas cidades de Santa Bárbara, Nova Odessa e Sumaré. Em Americana, os combustíveis começaram a faltar nos postos por volta das 13h.

A reportagem conversou com motoristas nos postos e todos estavam preocupados com a situação, que pegou muita gente de surpresa nas primeiras horas da manhã.

“Assim que acordei para ir trabalhar, amigos já estavam dizendo em grupos de mensagens que era melhor abastecer agora porque não sabiam quando os caminhoneiros iriam voltar. Ao chegar aqui, já estava tudo parado, fiquei cerca de duas horas e meia pra conseguir abastecer”, relatou o autônomo José Rodrigues Pereira, de 53 anos morador de Nova Odessa, que parou em um posto da Avenida Ampélio Gazzeta para abastecer o furgão que utiliza para entregas.

As filas nos postos já eram registradas ainda na noite desta quarta-feira (8). Assim que a notícia de que os caminhoneiros haviam fechado a Rodovia Anhanguera, em Limeira, funcionários de um posto de combustíveis na Avenida da Indústria, em Santa Bárbara, se preparavam para fechar quando o estabelecimento foi invadido por diversos veículos querendo abastecer.

“Estávamos fazendo o fechamento e, do nada, vários carros chegando pra abastecer dizendo que os caminhoneiros tinham ‘fechado as rodovias’ e que faltaria combustível. Acabamos atendendo cerca de 120 carros e após isso, fechamos”, contou um frentista.

Em Sumaré, a proprietária de um posto de combustíveis localizado na Avenida da Amizade relatou que um dos veículos do posto chegou a ficar retido nas manifestações.

“Meu caminhão foi carregar na Replan às 3h da manhã. Quando saiu, por volta das 5h, já ficou parado e agora às 11h30 que ele disse que estava liberando tudo, e que seguiria para nosso posto. Nosso estoque acabou as 9h30 e aí fechamos”, comentou a proprietária.

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