Histórias e sonhos de alguns dos mais de 32 mil haitianos vivendo na RMC e os exemplos dos que buscam ajudar o devastado país caribenho
No dia 7 de julho, homens armados invadiram a casa do presidente do país, Jonevel Möise, e o assassinaram. A esposa do haitiano, Matine, também foi ferida, mas sobreviveu.
Como se não bastasse a instabilidade política causada pelo crime, um terremoto de magnitude 4,9 atingiu o país, causando a morte de mais de 2,1 mil pessoas e deixando outras 20 mil desabrigadas.
“A situação do Haiti está muito crítica. Não tenho vontade de voltar. Tudo isso deixa a gente muito desmotivado”, comenta. “Falo com frequência com meus irmãos que continuam lá. Estão todos bem.”
Entre Porto Príncipe e Santa Bárbara d’Oeste, Richard fez escalas na República Dominicana, em Manaus e no Rio. Hoje ele trabalha como ajudante em uma padaria no bairro Cidade Nova. “Trabalho para me sustentar, faço um curso de informática para ver se consigo mudar de emprego”.
Richard diz já estar familiarizado com o Brasil, que fez bons amigos aqui e gosta do país, apesar de “também estar passando por uma crise”, mas que a língua foi um obstáculo nos primeiros meses de estadia. “Eu não sabia a língua e era muito ruim no começo”.
ONG
A língua também foi um problema para Joel Jean, 41, morador de Sumaré.
Se não fosse a “ajuda de pessoas generosas” ligadas à igreja evangélica, ele teria tido ainda mais dificuldades do que as enfrentadas logo que chegou na Região Metropolitana de Campinas em 2015 – e hoje mantém uma ONG (Organização Não Governamental) de ajuda humanitária a haitianos, a Conexão Brasil-Haiti. “Eu pensava: como vou me comunicar aqui, não sei falar nada dessa língua? Tive a sorte de contar com a ajuda de uma pessoa da Assembleia de Deus, que pagou meu primeiro mês de aluguel e me ajudou com a língua”, explica.
Hoje, Joel trabalha na construção civil e estuda matemática.
Em 2017 ele trouxe a esposa, Bebetha, e a filha Bohane Jean, de 13 anos. De lá pra cá tiveram mais duas filhas, Johanie, de três, e Josete, de oito dias. A ONG de Joel realiza campanha de arrecadação de itens de primeira necessidade e dinheiro para custeá-los. Ele mantém uma sede da ONG em sua cidade natal, Petit’Goâge (ao sul da capital), além da ajuda de voluntários em Sumaré.
A ONG de Joel conta com a ajuda de outra organização Nova Odessa, a Associação Expandido Amor.
Fundada há cinco anos pelo empreendedor social Matheus Senna, a entidade desenvolve trabalhos de assistência e inclusão social e desenvolvimento comunitário.
“Eu estive no Haiti em 2016, fiz parte de uma equipe de voluntários que, após a passagem do furacão Matthew, chegou para ajudar. Sempre amei o Haiti e este ano conheci o Joel, começamos a conversar e vimos que daria para juntarmos forças para ajudar a nação haitiana. Daí criamos o Projeto Conexão Haiti”, explica.
Agora, ambos arrecadam doações para uma nova missão ao país.
RMC tem 33% dos haitianoshoje no Brasil
A RMC (Região Metropolitana de Campinas) possui uma concentração de mais de 32 mil haitianos dos cerca de 106 mil que estão no Brasil – 33%, a maior concentração do país. Os dados são do Atlas da Imigração e do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais).
Depois de Campinas, Americana é a cidade que concentra o maior número de haitianos, 2.259 de acordo com o último levantamento. Sumaré tem 1.238 imigrantes do país, Santa Bárbara d’Oeste conta com 987, enquanto Nova Odessa e Hortolândia possuem 677 e 573, respectivamente.
O haitiano Guerby Sainté, 38, doutorando em geografia e pesquisador do Grupo de Estudos de Economia Política e Territórios, da Unicamp, explica que o fluxo migratório aumentou depois do terremoto que atingiu o país em 2010 e, principalmente, pela demanda de mão-de-obra para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014, e das Olimpíadas, em 2016. No entanto, o número de haitianos saindo do Brasil por conta da crise econômica e outros fatores, como o preconceito, vem aumentando. “Os haitianos não querem ficar no país. Eles estão indo embora depois da chegada da crise. Antes de 2013 a maior parte que vinha para o Brasil era com a intenção de estudar. Depois da missão da ONU e a promessa de emprego aqui, o fluxo aumentou bastante. Mas o que encontraram foram vagas com salários baixos e no mercado informal. O imigrante haitiano pega o que o brasileiro não quer”, explica.
Sainté afirma que o país caribenho sofre com a ocupação internacional e o que o país precisa diante dos problemas enfrentados é transferência de tecnologia para que consiga sobreviver aos desastres naturais e investimento em educação para reter intelectuais dispostos a colaborar com a reconstrução.
Jornada dupla por vidas
Uma vez por semana o haitiano Mário Aristide, 24, sai do trabalho às 18h e uma hora depois está à disposição dos Bombeiros Voluntários de Nova Odessa. Nessas ocasiões, fica de plantão na corporação até às 4h da manhã do dia seguinte e às 5h volta a trabalhar.
Ele, que atua na construção civil desde que chegou ao Brasil, em setembro de 2015, encontrou na atividade de salvar vidas uma paixão. “Deus tocou no meu coração para ajudar as pessoas e me transformei em bombeiro voluntário. Fui muito bem acolhido pelo grupo e é uma família que amo demais”.
O irmão mais velho de Mário, Celony, chegou ao Brasil antes, em 2013, e ganhando R$ 60 por dia conseguiu custear sua passagem de vinda. Na época, o haitiano morava no Equador, onde ficou por seis meses depois de ter saído da República Dominicana. “Tenho vontade de voltar ao Haiti para visitar a minha família, ainda tenho três irmãos lá. Mas não pretendo voltar, quero ficar no Brasil.”
Os Bombeiros de Voluntários de Nova Odessa conta com 65 voluntários e funciona 24 horas por dia.


