A Rússia anunciou nesta terça-feira (11) que concedeu a primeira aprovação do mundo para uma vacina contra a Covid-19. A aprovação foi dada pelo Ministério da Saúde do país à imunização produzida pelo Instituto Gamaleya, de Moscou, após menos de dois meses do início dos testes em humanos, segundo o presidente Vladimir Putin.
“Esta manhã foi registrada, pela primeira vez no mundo, uma vacina contra o novo coronavírus”, disse Putin, durante reunião com membros do governo.
A manobra abre caminho para a inoculação em massa, mesmo enquanto os estágios finais dos testes clínicos para verificar a segurança e a eficácia da vacina continuam.
A vice primeira-ministra da Rússia, Tatyana Golikova, disse que a vacina, que foi batizada de “Sputinik V” (em referência ao primeiro satélite enviado pelos russos ao espaço, em 1957, o “Sputinik”), vai começar a ser administrada a profissionais de saúde, a partir de setembro, e que estará disponível ao público em janeiro de 2021.
Pelo menos três anúncios de vacinas em desenvolvimento foram feitos pelo país nas últimas semanas, mas nenhuma delas teve o resultado dos testes divulgados para apreciação de cientistas.
De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a imunização criada pelo Instituto Gamaleya está na primeira das três fases de testes clínicos.
Mais de 160 vacinas contra o novo coronavírus estão em desenvolvimento no mundo – 26 delas já na fase de estudos clínicos, segundo informações da OMS de 31 de julho.
O desenvolvimento de uma vacina pode levar anos e precisa passar por uma sequência de testes que comprovem a segurança e a eficácia da substância para proteger contra a doença.
Os chamados testes clínicos, feitos em humanos, precisam de três diferentes fases para comprovar a eficácia da imunização. Uma autorização para uso da vacina na população só vem após a conclusão dos testes clínicos.
Em regra, desenvolvedores de vacinas publicam resultados dos testes em periódicos especializados, que contam com a revisão feita por outros cientistas – o que não ocorreu com a vacina russa.
A falta de divulgação dos resultados das pesquisas gera desconfiança na comunidade científica internacional. A velocidade com que a Rússia está se movendo para lançar sua vacina destaca sua determinação em vencer a corrida global por um produto eficaz, mas despertou preocupações de que pode estar colocando o prestígio nacional antes da ciência e da segurança.
No anúncio ontem, Putin disse que sua filha está entre os vacinados.
Operação cercada de segredos ao custo de R$ 300 milhões
A polêmica criação da “Sputnik V”, a vacina que os russos informaram ter aprovado nesta terça (11) para combater o novo coronavírus, foi uma operação cercada de segredo.
Com efeito, ela teve caráter militar. Custeada por 4 bilhões de Rublos (R$ 300 milhões) pelo RDIF (Fundo de Investimento Direto da Rússia), a Sputnik teve colaboração direta do Ministério da Defesa Russo.
Uma de suas unidades, o 48º Centro de Pesquisas, participou do esforço liderado pelo Instituto Gamaleia, principal referência em microbiologia e virologia na Rússia.
Mais chamativa ainda foi a participação do Centro Vektor. Criado em 1974, esse instituto era um dos responsáveis por pesquisas de armas biológicas soviéticas durante a Guerra Fria.
Com laboratórios de segurança máxima, é um dos poucos lugares do mundo onde estão guardados exemplares do vírus da varíola.
Hoje, o Vektor faz parte do Serviço Federal para Vigilância de Proteção do Direitos do Consumidor e Bem-Estar Humano. O nome civil, segundo analistas russos, apenas dissimula seu caráter ainda militar.
Há também o lado tecnocrático. O RDIF assumiu toda a divulgação dos esforços do Gamaleia, e não o Ministério da Saúde ao qual o instituto é subordinado.
O site da vacina (https://sputnikvaccine.com/) foi lançado nesta terça sob sua supervisão, com traduções em sete línguas – inclusive o português, já que o Brasil é um mercado-alvo do produto e já há testes previstos no Paraná.
As conversas com outros países, como os Emirados Árabes, também passaram pelo fundo.