Enfermeiro: uma categoria sob risco constante

Bruna e Jonathan se conheceram no antigo Hospital Infantil André Luiz. Os dois são enfermeiros há 16 anos. Se casaram, tiveram duas filhas e, quem podia imaginar, viram o cotidiano virar de pernas pro ar com a pandemia de Covid-19.

Como as duas meninas ficavam sob o cuidado dos avós – e agora eles estão fechadinhos em casa, com medo do vírus -, o casal teve de improvisar e trabalhar em turnos alternados. Ela no Samu de Sumaré, ele no Hospital Unimed de Americana. Quando um chega o outro sai. Mal se encontram. Mas pelo menos as meninas Isabela, de 5 anos, e Eduarda, de 10, passaram a ter companhia o tempo todo.

Tudo parecia ter entrado nos eixos de novo, quando Bruna começou apresentar sintomas de gripe e teve de se isolar em quarentena, enquanto aguarda o resultado do teste. Justo ela que usa macacão apropriado, máscaras e luvas. Toma todo cuidado possível com os calçados. E nunca entra dentro de casa com as vestimentas do trabalho.

A história de Bruna Busnardo e Jonathan Trindade de Souza simboliza o cotidiano difícil dos profissionais da saúde. Uma categoria que arrisca a própria vida – e abre mão da segurança do lar – para trabalhar no atendimento a pacientes infectados.

 
Os enfermeiros Bruna e Jonathan com as filhas Isabela e Eduarda

Para se ter uma noção de quanto a atividade dos enfermeiros é perigosa no momento, 15 profissionais de enfermagem já morreram no Estado de São Paulo, vítimas de Covid-19. Outros sete morreram em casos suspeitos de contaminação.

Mais: 464 profissionais de enfermagem estão internados, com o diagnóstico confirmado. E nada menos que 1.878 – entre eles a americanense Bruna – estão afastados do trabalho, sob suspeita de terem sido infectados.

Os números são do Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem). E refletem uma situação inusitada, de dimensões muito maiores que a imaginada no começo.

“Nós tivemos, aqui mesmo na região, diretor de hospital desaconselhando o uso de máscaras, pra não deixar a população em pânico”, conta a enfermeira americanense.

Ela também se lembra que o número limitado de leitos e respiradores não era o único drama do setor. Muitos enfermeiros e auxiliares trabalhavam usando máscaras de pano simples, sem filtragem eficiente. “Muita gente adoeceu porque não usava as máscaras cirúrgicas apropriadas, à base de TNT”, diz.

Também houve um período em que os enfermeiros descartavam as máscaras no fim do expediente e voltavam para casa desprotegidos. Tempo, lembra, que os profissionais passaram receber a doação de máscaras da própria comunidade.

HOSPITAIS

A situação só não fugiu do controle na região porque o sindicato trabalhista que representa a categoria mergulhou em uma campanha exigindo investimentos dos próprios hospitais nos EPIs (equipamentos de proteção individual).

E os estabelecimentos abraçaram a causa. “Pelo menos na cidade de Americana, que tem 1.900 trabalhadores na área de saúde, não faltam equipamentos de segurança”, afirma o dirigente sindical Otoniel Pereira de Matos.

E a campanha não se limitou à aquisição dos EPIs. O dirigente conta que os hospitais passaram a oferecer apoio psicológico e a difundir as normas de conduta individual para o enfrentamento do vírus. E, além dos técnicos, os recepcionistas e funcionários de apoio também se tornaram protagonistas de ações que mudaram, para melhor, as relações de trabalho e a prestação de serviços.

“Hospitais, clínicas e consultórios da cidade passaram a contar com um planejamento que garante a saúde dos funcionários e dos pacientes”, afirma o sindicalista.

MORTE

Morreu na segunda-feira o técnico de enfermagem Wagner Luís Cunha, que trabalhava na Santa Casa de Campinas desde 2017. Ele estava internado no Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas após contrair o novo coronavírus. “Perdemos mais um soldado que esteve honrosamente na linha de frente da batalha contra a Covid-19”, disse Sofia do Nascimento, presidente em exercício do
sindicato.

NÚMEROS

– Com suspeita de Covid-19 em quarentena: 1.878
– Diagnóstico confirmado com Covid-19 em quarentena: 464
– Diagnóstico confirmado de Covid-19 internados: 9
– Com suspeita de Covid-19 falecidos: 7
Fonte:Coren-SP/Cofen
Diagnóstico confirmado de Covid-19 falecidos: 15

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