“Um brilho na noite em Palmares, ouvi a batida forte do tambor.” É com esse espírito e a bênção de toda ancestralidade que a Associação Motta de Capoeira e Cultura Afro realizou neste final de semana, de sexta-feira (22) até domingo (24), a segunda edição do “Aquilombar”, em Santa Bárbara d’Oeste.
Com diversas atividades realizadas especialmente no Centro Cultural Edgard Tricânico D’Elboux, que fica no Conjunto Habitacional Roberto Romano, o encontro é tido como uma necessidade histórica, atendendo a um “chamado”, realizando uma reconexão com a ancestralidade para atuar no presente, construindo esperança, força, sonhos, em busca de um futuro melhor.
O Aquilombar deste ano também promoveu o fortalecimento do Baque Mirim do Romano, que, além das atividades de formação e oficinas realizadas com o grupo, também arrecadou recursos para a manutenção dos seus projetos com a venda de camisetas e de uma rifa (cada nome era vendido no valor de R$ 5).
PROGRAMAÇÃO
Os trabalhos do Aquilombar se iniciaram às 17h da sexta-feira (22). Logo depois, todos foram participar da roda de capoeira, seguida de uma roda de conversa sobre o tema principal do encontro: “Aquilombar com sabedoria”. Encerrando a programação do dia, todos jantaram juntos, com as bênçãos dos Orixás sobre o alimento.
No sábado (23), o despertar foi logo cedo, às 7h. Todos se prepararam e foram tomar o café da manhã, que serviu de preparação para a oficina de Jongo que veio logo em seguida. Após o almoço, às 14h, teve oficina de Maracatu com o ogan batuqueiro do Maracatu da Nação Porto Rico, Rumenig Dantas, que é padrinho do Baque Mirim do Romano e veio para Santa Bárbara diretamente de Recife para “aquilombar” com seus afilhados. Às 18h, depois de um café da tarde reforçado, teve ensaio aberto na Praça do Romano. Fechando o dia, teve o jantar e um ciclo de debates em que os participantes puderam trocar experiências e impressões de suas vivências, na busca de se fortalecerem para continuarem resistindo e sobrevivendo.
Depois de “madrugarem”, a alvorada foi logo cedo também no domingo (24), iniciando o despertar pouco depois das 8h. Porém, as atividades da programação aconteceram apenas após o almoço, com batuque e dança, Jongo, intervenção poética, Maracatu e muita música. No encerramento, o Maracatu do Baque Mirim de Rumenig Dantas, se juntou ao Jongo do Mestre Flavinho – que veio diretamente do Rio de Janeiro para o Aquilombar e também conduziu a oficina – e a capoeira do Mestre Motta, fazendo um encontro cultural de raiz de matriz africana inesquecível para quem estava ali presente.
VALORES
O mestre de capoeira Atanael Motta Junior, um dos fundadores da Associação e organizadores do Aquilombar, fez questão de reforçar a importância dos valores civilizatórios afro-brasileiros que foram centrais para a construção da atividade imersiva.
Dentro do mapa apresentado pelo mestre Motta, constam a circularidade, religiosidade, corporeidade, musicalidade, cooperativismo ou comunitarismo, ancestralidade, memória, ludicidade, energia vital (axé) e oralidade como sendo estes valores.
TEIA
Silvia Motta, que também faz parte da Associação e é uma das organizadoras do Aquilombar, pontua a necessidade de se registrar como foi criada essas alianças como uma “teia”, sem auxílio do Poder Público, apenas no fortalecendo as conexões entre as lideranças da cultura afro brasileira que lutam para dar voz e manter viva sua história e a essência de sua resistência.
“Chegamos até aqui através de uma ideia da Silvia Motta. No ano passado fizemos o primeiro Aquilombar através de uma necessidade que ela sentiu. O Nig [Rumenig Dantas] estava aqui em um outro contexto e várias coisas aconteceram. Eles fizeram um grupo, conversaram, se articularam, trouxeram o Flavinho do Rio de Janeiro. Ele tem a mesma luta, as mesmas ideias que a gente tem aqui. Veio sem recurso, porque a gente não tem. Fomos atrás de tudo pra fazer esse Aquilombar”, explica o mestre Motta.
Para Silvia, a grande diferença que fez tudo acontecer, foi a união. “É essa necessidade de fortalecer exatamente os nossos, porque a anulação, desvalorização e a invisibilidade que o país inteiro dá a nossa cultura coloca tudo o que é do negro em último plano. Acho que esta questão de valores, desse diálogo aberto, dessa necessidade de estar junto, foi o que fez o Flavinho estar aqui. Porque a partir do momento que eu disse para o Nig que iríamos nos aquilombar, ele falou “tenho um irmão aí”. Eu disse a ele que não tínhamos caixa. Ele respondeu: “mãe, é irmão”. Até se a gente falar que não tem dinheiro para a passagem, ele vai se virar e vai vir, conta.
Emocionada, ela confidencia mais uma história. “Quando a Maria me perguntou se podia me chamar de mãe, se podia voltar e ficar aqui comigo, isso aconteceu no Aquilombar. Só vivendo isso pra entender o que significa. Quem está carimbando a verba pra onde vai ou deixa de ir não vai entender”.
“Tem eventos aí que custam R$ 200 mil. A gente nem sabe esmiuçar um projeto desse tamanho. Aqui, sem nada, a gente dá um jeito, fica devendo, junta o povo e faz acontecer”, falou mestre Motta.
UNIÃO | Baque Mirim, Jongo e capoeira trabalhando juntos
AQUILOMBADOS DO RIO DE JANEIRO E RECIFE
Quando o comprometimento com a luta está na vivência do dia a dia, não há obstáculo que possa afastar a pessoa de onde ela precisa estar. É por isso que se chama “resistência”. E nada foi fácil para a vinda de mestre Flavinho ao Romano.
Nos percalços do trajeto, chegou a ter que dormir na rodoviária. Mas não se incomodou e seguiu. “Era para ter chegado na sexta-feira, no primeiro dia, mas não deu. Mal sabia ele que já estava aquilombando na hora que aceitou vir”, diz Silvia.
“Sua oficina durou duas horas, sem nenhuma pausa. Ao final, ele disse: “estou tão alimentado do que eu estou vivendo aqui que isto não tem preço.”, relembra ela. “Antes de qualquer coisa, a gente acredita muito na nossa ancestralidade. E a gente só consegue chegar em alguns lugares porque nossos guias permitem que nós cheguemos, diz mestre Flavinho.
Rumenig, que veio de Recife, explica que esteve no Romano para ajudar a construir algo diferente. “O Aquilombar esse ano veio em um formato especial, que é o aquilombar com inteligência. Ensinar o nosso povo a aquilombar, não só os pretos e as pretas, mas sim o ser humano”.