Quando o primeiro “Os Incríveis” chegou aos cinemas, em 2004, os super-heróis ainda não eram levados a sério por Hollywood. Apesar de alguns lampejos, o gênero amargava fracassos (“Mulher-Gato”, “Demolidor”) e a Marvel como conhecemos atualmente só se configuraria quatro anos depois.
Assim, a animação de Brad Bird pousou em um terreno fértil ao mostrar uma família que se dividia entre banalidades cotidianas e batalhas contra supervilões. “Os Incríveis” foi indicado a dois Oscar -venceu como melhor animação- e rendeu US$ 633 milhões no mundo.
Quatorze anos depois, “Os Incríveis 2” encara um cenário diferente. Hoje, o cinema pop americano basicamente vive de adaptações de histórias em quadrinhos: só neste ano, as bilheterias somadas de “Pantera Negra”, “Vingadores: Guerra Infinita” e “Deadpool 2” representam mais que o valor total dos outros 20 filmes mais vistos de 2018.
“Quando comecei a pensar na sequência, houve um momento em que fiquei deprimido, porque havia muitos super-heróis nos cinemas e, quando lançasse o meu filme, as pessoas poderiam estar cansadas disso”, afirma Bird à reportagem.
A saturação do mercado, no entanto, não atrapalhou. Em dez dias de exibição nos EUA, o desenho rendeu US$ 350 milhões (R$ 1,31 bi) e bateu o recorde de fim de semana de estreia de um longa animado. Também foi elogiado pela crítica.
Mas houve percalços. Com adiantamento no cronograma porque a Disney precisou adiar “Toy Story 4” para 2019, a equipe trabalhou sob pressão. “Foram três anos de caos”, conta o produtor John Walker, parceiro de Bird.
Quando a maré parecia mais calma, outra notícia abalou o estúdio: em novembro passado, John Lasseter, cofundador da Pixar e um dos nomes mais importantes da história da animação, foi acusado de assédio sexual, o que culminou em sua saída do cargo de diretor criativo da Walt Disney Animation Studios.
Bird não nega a importância de Lasseter, um dos seus mentores, no roteiro do longa, mas conta que o envolvimento dele já não existia quando as denúncias surgiram. “Eu já fiz filmes com e sem John Lasseter. Sei bem como dirigir um longa”, afirma Bird. Na animação, ele recebe o crédito de consultor criativo.
O novo cenário hollywoodiano, com a eclosão de movimentos feministas, provocou transformações no estúdio. “As mulheres que trabalham lá sentem que podem levantar a mão e fazer sugestões. Antigamente, não era assim”, diz a produtora Nicole Grindle, que começou a carreira na equipe técnica de “Vida de Inseto”, em 1998. “Elas sempre tiveram permissão para falar, mas agora se sentem mais à vontade.”
A trama de “Os Incríveis 2” segue essa tendência de igualdade de gêneros. A Mulher-Elástica é escolhida para servir de heroína modelo de uma grande empresa para tentar reverter a lei que proíbe a atuação de super-heróis. Já o fortão Sr. Incrível precisa ficar em casa cuidando dos filhos Flecha, Violeta e Zezé.
“A Mulher-Elástica já era forte no original. Não mudamos a trama para tirar proveito de uma situação. Não devemos nunca antecipar um zeitgeist, mas escrever uma história honesta e atemporal.
Para as crianças, mas principalmente para os adultos
Em 2004, “Os Incríveis” fez sucesso mundial. Era atraente para as crianças e também para adultos, em sua discussão sobre a percepção da decadência profissional dos veteranos, personificada no paizão, o Sr. Incrível. Depois de 14 anos, a continuação do filme surge ainda mais direcionada a espectadores grandinhos.
Quem tem filhos pequenos pode levá-los sem receio algum a uma sessão de “Os Incríveis 2”. Mas pode ser difícil a tarefa de acompanhar uma trama que fala sobre inclusão social, crise econômica e da força da propaganda e das mídias sociais.
Para quem não viu o filme original (quem?), vale explicar que os Incríveis são o pai megafortão Sr. Incrível, a mãe Mulher-Elástica, a adolescente Violeta (que pode ficar invisível e criar campos de força), o garoto superveloz Dash (que na versão dublada tem o nome Flecha) e o bebê Jack-Jack (no Brasil, Zezé), que dava pistas de ter superpoderes, até então adormecidos.
No segundo filme, a família está sem dinheiro, há leis que impedem os heróis de agir no combate ao crime e Violeta está enfrentando todos os problemas que a vida escolar pode proporcionar.
Então, um investidor milionário, Winston, procura os Incríveis oferecendo ótimo salário e um plano de marketing para que eles voltem à ativa.
O problema é que a estratégia é focada na Mulher-Elástica, que teria maior apelo junto ao público. Ela parte sozinha para as missões, e um desolado e frustrado Sr. Elástico fica com a incumbência de cuidar da casa e dos filhos.
Mas, quando é para fazer rir, “Os Incríveis 2” deita e rola principalmente por causa do pequeno Jack-Jack. Ainda sem falar, ele engatinha, baba e a cada cinco minutos demonstra um poder diferente e destruidor.