Política na pauta

Em 1990, Fernanda Abreu despontou com seu primeiro disco solo “SLA Radical Dance Disco Club” e, em entrevista a este jornal, cravou que a onda da vez era “ser negão”. Passadas três décadas, a carioca olha para sua trajetória e garante que, agora, a onda é “ser bundão”.

Embora alguns colegas não vejam a música moderna com bons olhos, direcionando suas críticas ao funk, que chamam de ode à bunda, o comentário nada tem a ver com o ritmo do qual ela se tornou uma defensora desde que subiu o morro no final dos anos 1980 com o amigo DJ Marlboro. O alvo é o cenário político.

“Do jeito que está não dá para continuar. Nós merecemos governantes que estejam comprometidos com esse país, com saneamento básico, educação, o desenvolvimento do espírito crítico e político nas pessoas. Tudo é política, desde namorar até pagar imposto”, diz a cantora que se assustou com a guerra instaurada pela Secretaria de Comunicação contra o humorista Marcelo Adnet.

“O Mario Frias não gostar da imitação e fazer um post no perfil dele, vá lá. Mas a Secom entrar na jogada é absurdo, passa a ser institucional, vira uma guerra do governo contra os artistas, é revoltante.”

Isolada há seis meses, Abreu viu a pandemia redefinir seu 2020, quando celebraria 30 anos de carreira com uma turnê e o lançamento do DVD do registro do show “Amor Geral”, baseado no disco que, em 2016, quebrou o jejum de uma década sem material inédito.

O DVD chegou a ser gravado, mas sem o público que formava fila na frente do Imperator Centro Cultural João Nogueira, no Méier, já que a cantora foi surpreendida por um ofício do governo que decretou o fechamento de espaços culturais quando se preparava para subir no palco.

Aos 59 anos, a cantora não se importa com a busca pela juventude. “As pessoas são bem obcecadas com idade, nunca tive isso. Acho fútil, mas se for pra servir de estímulo a outras mulheres, ser um exemplo de que podem estar bonitas e com saúde, acho bacana.” É na pauta feminista que a artista vê o avanço.

“Depois da primavera das mulheres de 2013, o feminismo deu passos largos. Foi uma das coisas mais incríveis que avançaram na sociedade, mas ainda existe muita violência”, diz. “Essa facilidade com que os homens matam as mulheres é a coisa mais revoltante que existe, qualquer pessoa de bem tem que entrar de cabeça na luta a favor da mulher.”

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